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Por que Deus não nos criou perfeitos?

abril 5, 2021

Em vários encontros dedicados ao estudo da doutrina espírita, seja para assistir uma palestra ou para participar de um curso, seja para uma simples conversa, sempre se ouve alguém perguntar o porquê de Deus não nos ter criado perfeitos, já que é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom.

Por que temos que vigiar tanto? Por que temos que nos dedicar tanto? Por que temos que nos esforçar ao máximo para atingir as culminâncias angélicas? Não seria mais fácil Deus ter nos criado já como espíritos elevados, como espíritos de luz?

Uma maneira simplista de responder a tais questionamentos nos leva a dizer que Deus agiu assim porque essa foi ou é a Sua vontade. No entanto, esse seria um modo também simplista, inocente até, de reagir a tão importantes perguntas.

Em O Livro dos Espíritos temos amplas informações e ensinamentos de que a Doutrina Espírita tem por princípios as relações do mundo material com os espíritos ou com o mundo espiritual. Especificamente, no livro terceiro – As Leis Morais – há extensos preceitos acerca da lei divina ou natural, que, de acordo com a pergunta 648, está dividida em dez partes, compreendendo as leis sobre a adoração, o trabalho, a reprodução, a conservação, a destruição, a sociedade, o progresso, a igualdade, a liberdade e, por fim, a lei de justiça, de amor e de caridade.

Note-se que na sua resposta o Espírito de Verdade termina dizendo que:

“… a última lei é a mais importante: é por ela que o homem pode avançar mais na vida espiritual, porque ela as resume todas”. Enfatize-se a frase “avançar mais na vida espiritual…”.

Examinando cada uma dessas leis que compõem o todo de As Leis Morais, percebemos que tudo na criação Divina começa do mais simples para, ao se aprimorar, atingir o mais complexo. É assim com os mundos, que vão dos primitivos até os celestes ou divinos (Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo III), e é assim com as criaturas, que vão dos seres unicelulares até alcançar o reino hominal e, bem depois, as esferas elevadas da criação, na espiritualidade (questões 114 e seguintes de O Livro dos Espíritos).

Notadamente à lei do trabalho, os espíritos, ao responder à questão 678 (Nos mundos mais aperfeiçoados, o homem está submetido à mesma necessidade do trabalho?), informam:

“a natureza do trabalho é relativa à natureza das necessidades. Quanto menos as necessidades são materiais, menos o trabalho é material. Mas não creiais, com isso, que o homem fica inativo e inútil: a ociosidade seria um suplício em lugar de ser um benefício”.

Desse modo, as criaturas estão sujeitas ao trabalho como uma forma de combater a ociosidade, que lhes seria agônica.

Já na resposta à pergunta 778, em que Allan Kardec, ao tratar da lei do progresso, questiona se o homem pode retrogradar até o estado natural, os bons espíritos que nos abençoaram com a doutrina dizem: “o homem deve progredir sem cessar e não pode retornar ao estado de infância. Se ele progride é porque Deus quer assim. Pensar que ele pode retroceder à sua condição primitiva, seria negar a lei do progresso”. Portanto, o progresso é intrínseco às criaturas.

A seu turno, e na questão 785, o Espírito de Verdade diz que o maior obstáculo ao progresso é o orgulho e o egoísmo, e na resposta à pergunta 115 dita que:

“Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, quer dizer, sem ciência. Deu a cada um uma missão com o fim de os esclarecer e os fazer avançar, progressivamente, a perfeição para o conhecimento da verdade e para os aproximar dele. Os Espíritos adquirem esses conhecimentos passando pelas provas que Deus lhes impõe. Alguns aceitam essas provas com submissão e alcançam mais prontamente o fim de sua destinação. Outros não a suportam senão murmurando e, por suas faltas, permanecem distanciados da perfeição e da felicidade prometida”.

No livro Libertação, o espírito André Luiz nos traz as aconselhadas palavras da benfeitora Matilde que, no capítulo 18, assim articula:

“O Senhor criou leis imperecíveis e perfeitas para que não alcancemos o reino da divina Luz ao sabor do acaso, e Espírito algum trairá os imperativos sábios do esforço e do tempo! Quem pretende a colheita de felicidade no século vindouro comece desde agora a sementeira de amor e paz”.

Por sua vez, o instrutor Gúbio, nessa mesma obra (capítulo 20), ensina:

“o trabalho de reajustamento próprio é artigo de lei irrevogável, em todos os ângulos do universo. Ninguém suplique protecionismo a que não fez jus, nem flores de mel às sementes amargas que semeou em outro tempo… E como emendar é sempre mais difícil que fazer, não podemos contar com o favoritismo, na obra laboriosa do aprimoramento individual, nem provocar solução pacífica e imediata para problemas que gastamos longos anos a entretecer. A prece ajuda, a esperança balsamiza, a fé sustenta, o entusiasmo revigora, o ideal ilumina, mas o esforço próprio na direção do bem é a alma da realização esperada”.

Diante de tudo o que foi modestamente exposto, podemos concluir que Deus, o Senhor da Vida, ordenou leis superiores, dentre elas a do trabalho e a do progresso, às quais estamos todos submetidos, os mundos e as criaturas. Por conta dessas leis divinas e imutáveis, não seria razoável e justo termos sido criados perfeitos – a perfeição relativa, aquela possível às criaturas –, já que isso nos tiraria a possibilidade de alcançar os cimos de esmero com o nosso próprio valor, com o nosso próprio ânimo, razão pela qual temos a obrigação de continuar nos esforçando para combater a ociosidade e progredir, avançando mais na vida espiritual, sob as leis morais do Criador.

Assim, continuemos nossa marcha consciente, rumo ao progresso. Como visto, essa é uma das leis soberanas, amorosamente, impostas por Deus, juntamente com a do trabalho, para que alcancemos, pelos nossos próprios méritos, os mundos celestes que estão reservados a nós, os quais estamos fadados a atingir.

Renato Confolonieri

Nota do Editor:
Imagem ilustrativa e em destaque disponível em <https://www.famart.edu.br/tag/crescimento-pessoal/>. Acesso em: 05ABR2021.

Renato Confolonieri
Renato Confolonieri

Atuante no Espiritismo há 20 anos, participou por três anos e meio da entrega de sopa no Grupo Fraterno de Assistência Nossa Casa em São Paulo, articulista no periódico Ação Espírita e Membro de Reuniões Mediúnicas no Grupo Espírita Jesus de Nazaré, ambos de Marília, interior de SP.

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