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Apologia da cruz

setembro 23, 2020

O verdadeiro calvário do Cristo é a nossa rebeldia em seguir-lhe os ensinos

“Ora, vós sois o corpo do Cristo e cada
um em particular sois membros dele.”

– Paulo. (I Cor., 12:27.)

Necessário se faz amadurecer as reflexões em torno do verdadeiro martírio de Jesus, a fim de separar-se a ficção da realidade vez que o observador menos atento, o exegeta descuidado e propenso a análises perfunctórias, tende por força das tradições a conclusões equivocadas crendo que o maior sofrimento de Jesus foi o drama do Gólgota… Não foi!

Sem pretendermos minimizar Suas acerbas dores naquela ocasião, devemos convir que tal martírio era infligido de maneira abundante naqueles tempos perversos e contam os fastos históricos que em apenas um só dia foram crucificadas mais de três mil pessoas juntas.

Se ficarmos somente na apologia da cruz estaremos diminuindo o mérito de Jesus, pois todos os condenados que assim pereceram sofreram de igual modo e alguns até mais, pois se demoravam a morrer quebravam-lhes as pernas e, sem ponto de apoio para o corpo a respiração era extremamente dificultada. Se ainda assim não morriam, provocavam fumaça debaixo da cruz, levando à morte por penosa asfixia em superlativa aflição. Jesus morreu antes disso. Assim, deduzimos que o Seu sofrimento maior foi encarnar-Se neste planeta de sombras.

Podemos até mesmo afirmar, coerentemente com a verdade, que o sofrimento de Jesus continua até hoje na medida em que Ele observa que os conhecedores de Seu Evangelho não o praticam. Este sim foi e continua sendo o Seu interminável calvário. Até quando?

Mas o ser humano, fértil em despautérios e obtusidade mental, com imensas dificuldades em promover a reforma estrutural íntima, optou por um caminho mais fácil querendo aproveitar o sangue de Jesus para lavar seus pecados. (!!?)

Lemos algures: “o sangue de Jesus não teve um valor intrínseco na remissão dos pecados, mas, extrínseco, na medida em que o vemos como um testemunho necessário para sedimentar os princípios que pregava, dentre os quais se sobressaem o amor, a tolerância, a humildade e a firmeza na virtude, sustentados até às últimas consequências. Em suma, o sangue que vai lavar nossos pecados é o nosso mesmo, repetidamente utilizado ou derramado quantas vezes sejam necessárias nas múltiplas reencarnações expiatórias.”

Chamou-nos a atenção esta frase de uma criança: “lá na casa da vovó tem um Jesus todo machucado!”

Num “flashback” vislumbramos também, no recôndito de nossa mente, essa imagem machucada! O Jesus que nossos avoengos nos passaram é realmente todo machucado em ancilosante paralisia na cruz.

Quantas vezes, quando criança, ficávamos paralisados de terror com a impressionante e deprimente imagem de Nosso Senhor dos Passos, utilizada nas procissões da dita “semana santa”! Esse era o Jesus que nos apresentavam!…

Já o Espiritismo nos mostra um Jesus completamente oposto, que não mete medo e tampouco inflige terror, despregado da cruz, amigo, aconchegante, dinâmico, trabalhador, além de incomparável companheiro incondicional de todas as horas. Um Jesus que diz: “não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós; não vos deixarei órfãos, voltarei para vós; ninguém tem maior amor do que este: de dar esse alguém a vida pelos seus amigos; tenho-vos chamado amigos; Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver também eles estejam comigo; minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam; Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas!

Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintainhos debaixo das asas; porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido; deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei; e eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um; e eu lhes fiz conhecer o Teu nome, e lho farei conhecer mais; vou preparar-vos lugar… etc…”

Desarraiguemos de nossa mente as cenas de martírio de Jesus como no-las mostram o mundo; cenas que se prestam hoje à exploração turística numa tresloucada simonia.

Aquela imagem machucada não é compatível com a realidade dinâmica de quem trabalha permanentemente. Jesus não tem nada de impotência, inércia e tampouco está sentado em trono algum. Ele está de pé, e é todo dinamismo, alegria, trabalho, amor, doçura, caridade, abnegação, ternura, afeto, dedicação, paciência, conhecimento, devotamento… Seus braços já foram despregados há dois mil anos e, se Ele já não se encontra mais na cruz, por que cristalizar Sua imagem naquele ignominioso instrumento de tortura e morte?

Meu Pai trabalha até hoje, e eu também”. Como poderia Ele trabalhar com os braços eternamente pregados? De forma alguma podemos mentalizar Jesus desse modo paralítico e sanguinolento.

Seus braços passaram a ser os nossos braços, embora em condições precárias, mas traduzindo o amor na prática, na ação… Vemos aí que Paulo de Tarso afirma que somos membros do Mestre em particular. Assim, onde estivermos, atendamos ao impositivo de nossas tarefas, convencidos de que nossas mãos substituem as do Celeste Amigo ainda que dentro da precariedade de nossas limitações. O Senhor age em nós a favor de nós.

Ensina Emmanuel: “(,,,) é indispensável nossa participação na obra da Criação. É indiscutível que Jesus pode tudo, mas para fazer tudo, não prescinde da colaboração do homem que Lhe procura as determinações.

Os cooperadores fiéis do Evangelho são o corpo de trabalho em Sua obra redentora e regeneradora. Haja, pois, entre o servo e o orientador, legítimo entendimento e sadio relacionamento… Jesus reclama instrumentos e companheiros. Quem puder satisfazer ao imperativo sublime, recorde que deve comparecer diante d`Ele, demonstrando harmonia de vistas e objetivos, em primeiro lugar.

As marcas do Cristo não são apenas as da cruz, mas também as de Sua atividade na experiência comum. Enfim, a marca do Cristo é fundamentalmente aquela do sacrifício de si mesmo para o bem de todos.”

Lembremo-nos de suas palavras: “quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” Ai está o nosso roteiro: renunciar à vaidade, ao egoísmo, ao orgulho, ao personalismo e assumir nossa responsabilidade pelos equívocos escabrosos do pretérito, resgatando-os em função do amor a ser dedicado aos inúmeros filhos do Calvário à nossa volta.

Rogério Coelho

Nota do editor:
Imagem ilustrativa e em destaque disponível em <https://conhecimentocientifico.r7.com/historia-de-jesus/>. Acesso em: 22SET2020.

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Rogério Coelho
Rogério Coelho

Rogério Coelho nasceu na cidade de Manhuaçu, Zona da Mata do Estado de Minas Gerais onde reside atualmente. Filho de Custódio de Souza Coelho e Angelina Coelho. Formado em Jornalismo pela Faculdade de Minas da cidade de Muriaé – MG, é funcionário aposentado do Banco do Brasil. Converteu-se ao Espiritismo em outubro de 1978, marcando, desde então, sua presença em vários periódicos espíritas. Já realizou seminários e conferências em várias cidades brasileiras. Participou do Congresso Espírita Mundial em Portugal com a tese: “III Milênio, Finalmente a Fronteira”, e no II Congresso Espírita Espanhol em Madrid, com o trabalho: “Materialistas e Incrédulos, como Abordá-los?” Participou da fundação de várias casas Espíritas na Zona da Mata Mineira.

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