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Cego de nascença 

setembro 18, 2020

O verdadeiro poder é o daquele que faz o bem 

 “Se esse homem não fosse um enviado de Deus, 

nada  poderia  fazer  de  tudo o que tem feito.” 

  • João, 9:1 a 34. 

 

O episódio da cura do “cego de nascença” é riquíssimo em lições de incrível atualidade.  Inicialmente podemos observar dois fatos: a diferença entre prova e expiação e a noção intuitiva da preexistência da Alma desaguando (em consequência) na reencarnação… 

Perguntaram a Jesus: “Mestre, foi pecado desse homem, ou dos que o puseram no mundo, que deu causa a que ele nascesse cego?” 

Jesus respondeu: não é por pecado dele, nem dos que o puseram no mundo; mas, para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus.” 

Ora, se não havia dívida cármica e ele estava cego, evidentemente que não se tratava de expiação e sim de prova. Deus que é justo, não lhe imporia um sofrimento sem utilidade, portanto, se não era expiação do passado tratava-se de uma provação apropriada ao progresso daquele homem.   A pergunta demonstra também que os discípulos tinham intuição de uma existência anterior, portanto, a Reencarnação que é um dos pontos básicos do Espiritismo é tão antiga quanto o mundo, e dela todos os povos antigos possuíam alguma noção. 

Embora compreensivelmente Jesus não houvesse proclamado abertamente a reencarnação, observemos que Ele não Se alarmava com perguntas deste jaez e tampouco pedia maiores esclarecimentos, como por exemplocomo houvera podido este homem pecar antes de nascer?”   Se a pergunta dos discípulos fosse imbecil, Jesus teria respondido desta maneira. Não o fazendo, naturalmente estava chancelando a reencarnação. Vemos assim que a reencarnação ressalta até dos silêncios de Jesus.    

Em Se aproximando do cego Jesus disse: é preciso que eu faça as obras d`Aquele que me enviou, enquanto é dia; vem depois a noite, na qual ninguém pode fazer obras. Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo.”  É Jesus concitando-nos ao trabalho perseverante no Bem, enquanto temos força e condição para tal. Depois vem a noite que entendemos como o tempo após a oportunidade de termos realizado o trabalho e não realizamos, e aí será tarde!… 

O filho pródigo sempre encontrará aberta a porta de retorno ao aconchego do ninho paterno, no entanto, a qualquer tempo, a oportunidade perdida significará lamentável atraso na marcha evolutiva. 

Quando Jesus afirma: “Sou a luz do mundo”, Ele o diz com tamanha convicção e firmeza que exemplifica para todos nós o “modus-vivendi” do verdadeiro profeta, do missionário por excelência, consciente de sua missão. A mesma integridade de gestos Ele espera de todos os que se dizem Seus discípulos, fazendo brilhar a luz ínsita no imo de cada um. 

A importância de Jesus em nossas vidas foi ratificada mais tarde pela Doutrina Espírita (1), quando os Espíritos declararam-nO como o nosso “Modelo e Guia mais perfeito que Deus ofereceu ao mundo.” 

Após a cura do cego, observamos o efeito de tal acontecimento no dia a dia daquela sociedade: seus vizinhos e os que viram antes o cego a pedir esmolas diziam: não é este o que estava assentado e pedia esmolas? Uns respondiam: é ele. Outros diziam: não, é um que se parece com ele.” Observamos neste flagrante a incredulidade... Mas, mesmo incrédulos e perplexos, levaram o homem aos fariseus que também o interrogaram. 

Desnecessário dizer o quanto os fariseus eram orgulhosos e pretensiosos, julgando-se os donos da verdade e não admitindo nada além da apoucada capacidade deles. Nada lhes podia ser superior. Mas estavam diante de um fato que lhes desafiava a pretensa “sapiência e virtudes” e por isso, recalcitravam em admiti-lo, vez que seria o mesmo que concordar com a existência de algo situado acima da compreensão e competência que julgavam possuir. Mas, contra fatos não há argumentos e não tiveram alternativa senão admitir a cura. Mas ainda não se deram por vencidos! Entraram a discutir sobre a questão do sábado, dizendo: esse homem não é enviado de Deus, pois que não guarda o sábado.” Outros, porém, diziam: como poderia um homem mau fazer prodígios tais?” Nota-se claramente que, a propósito, havia dissensão entre eles. A seguir vem o lance que denominamos INGRATIDÃO E COVARDIA MORAL: os fariseus chamaram os pais do rapaz que era cego e indagaram: é esse o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que agora vê?” 

Os pais do ex-cego temiam os judeus porque estes já haviam deliberado entre si que quem reconhecesse Jesus como sendo o Cristo (Ungido) seria expulso da Sinagoga, o que equivalia a uma espécie de excomunhão. Assim, psicologicamente pressionados e, para não se comprometerem, responderam: sabemos que esse é nosso filho e que nasceu cego. Não sabemos, porém, como agora vê e também não sabemos Quem lhe abriu os olhos. (sabiam sim). Interrogai-o, ele já tem idade; que responda por si mesmo…” 

Tal resposta denota não só o egoísmo de ambos, mas o descaso para com a sorte do filho (que deveria se comprometer frente aos judeus, livrando a cara dos pais), mas também arrematada covardia e ingratidão, pois como pais deveriam estar exultantes de felicidade e agradecidos a Jesus que lhes curou o filho cego, emancipando-o da dor e da humilhação… 

Quantas criaturas na atualidade deveriam estar agradecidas e não estão!… Quantas se envergonham e se preocupam por terem filhos em escolas nas quais a grande maioria é constituída de não espíritas e, por constituírem minoria, alguns pais “espíritas” deixam que seus filhos se submetam aos ritos e costumes alheios ao Espiritismo. Todo esse “zelo” é para que sejam vistas como “diferentes” da maioria. Chamamos a isto falta de testemunho e ingratidão, além de incoerência para com a Doutrina Espírita que tanto nos beneficia… 

Estabelece-se, por fim, um diálogo tenso entre o jovem curado e os fariseus, no qual o rapaz com simplicidade e lógica imbatíveis pulveriza o orgulho farisaico não restando a estes alternativa senão apelar para a ignorância e destratar o ex-cego a fim de, pelo menos, minimizar a própria perplexidade e tornar menos fragorosa a derrota moral. 

Segundo Allan Kardec (2), o episódio do cego de nascença é “(…) uma cena da vida real apanhada em flagrante. A linguagem do cego é exatamente a desses homens simples, nos quais o bom-senso supre a falta de saber e que retrucam com bonomia aos argumentos de seus adversários, expendendo razões a que não faltam justeza, nem oportunidade. 

O tom dos fariseus, por outro lado, é o dos orgulhosos que nada admitem acima de suas inteligências e que se enchem de indignação à só ideia de que um homem do povo lhes possa fazer observações. Afora a cor local dos nomes, dir-se-ia ser do nosso tempo o fato.” 

Vejamos o final do diálogo: que te fez Ele e como te abriu os olhos?”  (Era a perplexidade mesclada com vaidade, impertinência e despeito). 

Respondeu o homem: “já vo-lo disse e bem o ouvistes;  por que quereis ouvi-lo segunda vez?  Será que queirais tornar-vos Seus discípulos?  —  Ao que eles o carregaram de injúrias e lhe disseram: sê tu Seu discípulo; quanto a nós, somos discípulos de Moisés.  —  Sabemos que Deus falou a Moisés, ao passo que Este não sabemos donde saiu.” 

O homem lhes respondeu: é de espantar que não saibais donde Ele é e que Ele me tenha aberto os olhos. (Pois os judeus não de se tinham na conta de sábios?) — Ora, sabemos que Deus não exalça os pecadores; mas, àquele que O honre e faça a Sua vontade, a esse Deus exalça. Desde que o mundo existe jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.   Se esse homem não fosse um enviado de Deus, nada poderia fazer de tudo o que tem feito.” 

O jovem com a lógica de sua argumentação realçou a obtusidade dos fariseus que irados e perdendo as estribeiras disseram-lhe: tu és todo pecado, desde o ventre de tua mãe, e queres ensinar-nos a nós?”  E o expulsaram…” 

Os fariseus de ontem e de hoje têm ânsia de poder, de supremacia…  Mas Jesus provou que o verdadeiro poder é o daquele que faz o bem, pois Seu objetivo era ser útil e não satisfazer a curiosidade dos indiferentes por meios de coisas extraordinárias e muito menos se submeter ao talante de ordenações puramente humanas e sem sentido como aquela de guardar o sábado. 

Aprendemos ainda com Kardec (3): (…) aliviando os sofrimentos, prendia a Si as criaturas pelo coração e fazia prosélitos mais numerosos e sinceros, do que se apenas os maravilhasse com espetáculos para os olhos. Daquele modo, fazia-Se amado, ao passo que se Se limitasse a produzir surpreendentes fatos materiais, conforme os fariseus reclamavam, a maioria das pessoas não teria visto nEle senão um feiticeiro, ou um mágico hábil, que  os desocupados iriam apreciar para se distraírem. 

Assim, quando João Batista manda, por seus discípulos, perguntar-Lhe se Ele era o Cristo, a Sua resposta não foi: “Eu o sou”, como qualquer impostor houvera podido dizer. Tampouco lhes fala de prodígios, nem de coisas maravilhosas; responde-lhes simplesmente: “ide dizer a João: os cegos veem, os doentes são curados, os surdos ouvem, o Evangelho é anunciado aos pobres…” O mesmo era que dizer: «reconhecei-Me pelas Minhas obras; julgai da árvore pelo fruto», porquanto era esse o verdadeiro caráter da Sua missão divina. 

O Espiritismo, igualmente, pelo bem que faz é que prova a sua missão providencial.  Ele cura os males físicos, mas cura, sobretudo, as doenças morais e são esses os maiores prodígios que lhe atestam a procedência. Seus mais sinceros adeptos não são os que se sentem tocados pela observação de fenômenos extraordinários, mas os que dele recebem a consolação para suas almas; os a quem liberta das torturas da dúvida; aqueles a quem levantou o ânimo na aflição, que hauriram forças na certeza, que lhes trouxe, acerca do futuro, no conhecimento do seu ser espiritual e de seus destinos. Esses os de fé inabalável, porque sentem e compreendem. 

Os que no Espiritismo unicamente procuram efeitos materiais, não lhe podem compreender a força moral.  Daí vem que os incrédulos, que apenas o conhecem através de fenômenos cuja causa primária não admitem, consideram os espíritas meros prestidigitadores e charlatães. Não será, pois, por meio de prodígios que o Espiritismo triunfará da incredulidade será pela multiplicação dos seus benefícios morais, porquanto, se é certo que os incrédulos não admitem os prodígios, não menos certo é que conhecem, como toda gente, o sofrimento e as aflições e ninguém recusa alívio e consolação.”    

Rogério Coelho 

 

Referências: 

(1) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, q. 625; 

(2) KARDEC, Allan. A Gênese. 43.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2003, cap. ,XV, item 25; e 

(3) Idem, ibidem,  cap. XV, itens 27 e 28. 

 

Rogério Coelho
Rogério Coelho

Rogério Coelho nasceu na cidade de Manhuaçu, Zona da Mata do Estado de Minas Gerais onde reside atualmente. Filho de Custódio de Souza Coelho e Angelina Coelho. Formado em Jornalismo pela Faculdade de Minas da cidade de Muriaé – MG, é funcionário aposentado do Banco do Brasil. Converteu-se ao Espiritismo em outubro de 1978, marcando, desde então, sua presença em vários periódicos espíritas. Já realizou seminários e conferências em várias cidades brasileiras. Participou do Congresso Espírita Mundial em Portugal com a tese: “III Milênio, Finalmente a Fronteira”, e no II Congresso Espírita Espanhol em Madrid, com o trabalho: “Materialistas e Incrédulos, como Abordá-los?” Participou da fundação de várias casas Espíritas na Zona da Mata Mineira.

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