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Pretensão descabida 

julho 6, 2020

 

Nada como o tempo para colocar à mostra nossa fragilidade humana, a visão limitada das ocorrências e a imaturidade que nos caracteriza o comportamento, iludindo-nos em pretensões, que depois mais tarde com a experiência dos anos, percebemos o quanto necessitamos de amadurecimento no trato com as variadas questões da vida humana. 

Isso vale para tudo. Nem é preciso dizer. Na experiência familiar, na vida profissional ou nos demais segmentos de atividades a que nos dedicamos nos relacionamentos humanos, o tempo é sempre o maior aliado, trazendo realidades que nem sempre enxergamos no ardor das paixões e dos apegos que ainda nos permitimos, iludidos de vaidades. 

Aquele personagem nasceu em família espírita e, desde pequenino, esteve com os pais, envolvido com as contínuas e crescentes atividades da instituição a que a família se vinculava. Vivenciado as várias fases do próprio desenvolvimento pessoal, na idade adulta chegou à Presidência da mesma instituição e viveu período muito produtivo e intenso de atividades, exercendo a função por vários mandatos, adquirindo sim vasta experiência e, de certa forma, envolvendo a região em eventos doutrinários memoráveis, com vasto intercâmbio com renomados palestrantes e tarefeiros espíritas da região e do país, tornando a pequena cidade e a própria instituição em foco irradiador de motivação para o estudo e a vivência doutrinária. Realidade que construiu graças a operosa equipe envolvida no mesmo objetivo. 

Porém, nessa época de entusiasmo e alegria pelos frutos colhidos em abundância, um expressivo equívoco foi cometido. Uma afirmação descabida, pronunciada talvez por exagerado entusiasmo e até certa ingenuidade, traria lição de profundo aprendizado. Afirmou nosso personagem que seu desejo era “fazer da instituição um modelo para outras”.  

A partir dessa pronúncia iniciaram-se as tempestades, que atingiram a instituição e seus trabalhadores de forma intensa, repetindo-se em situações que abalaram os relacionamentos, criando verdadeiro caos, que trouxe anos de aflições e tensões de vulto, que, de uma forma ou de outra, atingiram a toda a equipe, desestruturando quase que por completo os trabalhos em andamento.  

Atualmente, olhando-se pelo retrovisor, percebe-se a pretensão descabida da afirmação infeliz. Claro que não foi a frase em si, mas o sentimento que a norteou. Talvez uma vaidade, talvez um orgulho, que acionou o gatilho próprio desencadeador das crises comuns que surgem para nos amadurecer. 

Pretensão descabida sim. Nenhum de nós (ou a instituição que dirigimos) é modelo para ninguém, considerando nossa condição de aprendizes ainda iniciantes. Somos ainda frágeis, imaturos, para nos autopromovermos à condição de condutores capazes, eficazes, infalíveis, como se nossa suposta capacidade nos autorizasse a tais posturas, cuja autoridade moral ainda não foi adquirida. Em todos os lugares está a fragilidade humana que se reflete de várias formas nos variados segmentos. Daí as crises sociais abundantes.  

Vendo a lição e o rumo real dos fatos, o aprendizado foi enorme, expressivo, assimilado, que funciona hoje como autêntica vacina contra pretensões que possam se insinuar. A lição foi dura, mas previne hoje dos perigos e ciladas da ilusão. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém. Somos todos iguais na origem e na destinação, ainda que diferentes nas bagagens, experiências ou tendências e gostos. Cada um no seu tempo, na sua experiência, mas todos ainda frágeis e limitados. Iludir-se com nomes ou cargos, situações temporárias – como são todas as que vivemos– ou ocorrências tolas que são tão comuns, criar expectativas ou alimentar tolices bem dispensáveis, é bem caminhar para decepções futuras.  

Por isso, aprendamos com as lições vivas da experiência trazida pelo tempo. Pretensões descabidas a nada levam. Só fomentam aflições. 

Claro que não foi a frase, há vários fatores envolvidos em toda a ocorrência, com aprendizados para todos. Para o personagem, todavia, olhando no tempo agora, a lição foi expressiva, convidando à prudência e cuidado nas afirmações prematuras que nos permitimos sem reflexão. Intenção foi nobre. Equívoco esteve na pretensão. E talvez nem tenha sido pretensão, mas entusiasmo irrefletido, outro cuidado que se deve ter.  

O personagem citado, caro leitor, quem é? Pode ser qualquer um de nós… 

 

Orson Peter Carrara 

 

Orson Peter Carrara
Orson Peter Carrara

Expositor espírita, tem percorrido muitas cidades do Estado de São Paulo e já esteve na maioria dos estados do país, por várias vezes, para tarefas de divulgação espírita. Articulista da imprensa espírita, tem colaborado com diversos órgãos da imprensa espírita, entre revistas, sites e jornais do país, além de boletins regionais, no país e no exterior. Autor de treze livros, seus textos caracterizam-se pela objetividade e linguagem acessível a qualquer leitor, estando disponibilizados em vários sites de divulgação espírita.

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