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Lugares assombrados

janeiro 8, 2016

 

marcio_costa_150x150Em 2013, Lúcia mudou-se para um novo apartamento que ficava mais próximo do seu local de trabalho. O imóvel não era novo, mas atendia, plenamente, as suas necessidades. Os quartos eram maiores, a cozinha era ampla e, o melhor, o aluguel estava bem abaixo da média dos preços naquela área.

Tão logo foi possível, fez a sua mudança com muita correria e cansaço. Nem tinha tempo para relaxar na nova residência. Acordava cedo, abria caixas, organizava os cômodos, ia para o trabalho, voltava para o lar, jantava, fazia outras arrumações e, finalmente, jogava-se na cama sem forças. Em minutos já se encontrava em um sono profundo do qual somente se desvencilhava na hora de recomeçar o dia.

Em pouco tempo arrumou toda a casa e já conseguia curtir o novo lar. Sozinha, fez de um dos quartos uma sala de leitura, onde passava as horas lendo seus livros e trabalhando no computador. Da porta deste quarto visualizava a cozinha por meio de uma cortina levemente transparente instalada em uma janela basculante.

Certa noite, enquanto fazia a sua costumeira leitura, sentiu a presença de alguém a lhe observar da cozinha. Meio assustada, levantou-se, foi até o local e não viu ninguém. Voltou para o quarto e retornou a leitura. A partir daquele momento, passou a sentir novas presenças a rondarem pela sua casa e outras sensações de incômodo.

Deitada na cama sentia nitidamente que alguém lhe espreitava da porta. Quando estava no banho, percebia que alguém também estava no banheiro, do lado de fora do boxe. Em menos de uma semana, louças começaram a quebrar sem uma justa causa. Parecia que alguém no apartamento estava incomodado com a sua presença.

Sem o acolhimento e uma orientação adequada, não suportou o medo que lhe dominava todas as noites. Em poucos meses quebrou o contrato de locação e procurou outro imóvel.

                                                                                       * * *

Lugares considerados assombrados são aqueles onde ocorrem manifestações espontâneas de espíritos que desejam mostrar sua presença ostensivamente. A pequena história de Lúcia, adaptada para este conto, ilustra uma situação relativamente simples. No entanto, há casos onde a presença pode ser sentida muito mais ostensivamente, conforme relatos publicados por Allan Kardec nas Revistas Espíritas de outubro de 1858, fevereiro de 1860 e em outubro de 1866 [1].

De acordo com o Capítulo IX – Dos Lugares Assombrados, de O Livro dos Médiuns [2], dependendo da evolução dos espíritos, eles podem se apegar a pessoas, lugares e objetos. Os mais elevados tendem a procurar lugares onde possam praticar o amor e caridade. Os inferiores, ainda ligados aos bens materiais, podem se apegar aos objetos e lugares que lhe eram de interesse quando encarnados ou por imposição para que continuem a ver o local onde cometeram seus delitos.

Muitos ambientes considerados assombrados são, muitas das vezes, motivados pelo medo e pela crença popular. Costuma-se, por exemplo, acreditar que em ruínas e velhas construções podem ser encontrados “fantasmas”. Mas a maioria dos espíritos buscam os lugares onde haja uma ampla presença dos homens.  A menos que o insulamento lhes proporcione alguma satisfação. Muitas das vezes as “assombrações” só existem nas mentes criativas dos encarnados, alimentadas por fatores culturais, e lhes surgem por meio de simples barulhos de animais ou ruídos no silêncio da noite.

Em lugares onde haja a presença de espíritos inferiores presos ao local, este medo do encarnado acaba se tornando o efeito motivador para que os fenômenos ocorram. Um exemplo disto é que pouco importa ao espírito a contagem terrena das horas e dos dias. No entanto, se é à meia-noite ou em uma sexta-feira, a hora e o dia em que plasmamos os nossos medos, estas também serão as referências de tempo para que os espíritos zombeteiros possam atuar.

O espírito inferior que se prende a um local, por algum fato ocorrido em uma encarnação anterior (bens adquiridos, local onde pensa que fará contato com entes queridos, etc.), pode ficar por anos ou até séculos nesta condição. Ele somente deixará o local se cessarem os fatos motivadores que o deixaram naquela condição.

Costumes antigos tentavam exorcizar o local com os mais diversos tipos de cerimônias. Todavia, muitas destas tentativas não passavam de divertimento para os espíritos imperfeitos que se aproveitavam da situação para se divertirem à custa dos encarnados.

Sem dúvida, a melhor forma de expulsar os maus espíritos é atraindo os bons espíritos. Logo, as condições morais daquele que está passando por um processo similar é que ditarão o quanto a “assombração” irá interferir em sua vida. Manter-se no bem, na prece sincera, voltando seus pensamentos para o amor e na prática da caridade atraem, cada vez mais, a presença dos bons espíritos que afastarão as presenças de espíritos menos felizes. E, se caso estas ainda continuarem a perturbar, é porque ainda está nos Desígnios Divinos proporcionar a nós os motivos que nos possibilitem praticar a paciência e a necessidade de melhoramento.

Em nosso conto, Lúcia foi morar em um local onde um espírito possivelmente o considerava como sendo ainda dele ou da família com a qual viveu. A impressão de que ela se sentia uma intrusa naquele ambiente provinha de suas condições mediúnicas capazes de perceber as mentalizações do espírito sobre ela. Neste caso, a prece por aquele espírito também poderia vir a ser útil. Mas para ela, o principal seria melhorar-se moral e intelectualmente a fim de que atraísse bons amigos espirituais que envolvessem o ambiente em uma psicosfera de paz.

Nem todo lugar pode ser considerado assombrado. A assombração, algumas vezes, está nos elementos culturais construídos em nossas mentes desde a infância. Buscar a presença de espíritos superiores, através da elevação intelectual, prática do amor e da caridade, bem como da elevação de nossa condição moral, constituem elementos que tornarão o nosso ambiente mais adequado à paz e a luz, longe das sombras de nossos medos.

Márcio Martins da Silva Costa

 

Referências:
[1]      A. Kardec, “Revista Espírita”, 1858, 1860 e 1866.
[2]      A. Kardec, O Livro dos Médiuns. 1857.

Márcio Costa
Márcio Costa

Membro do Conselho Editorial da Agenda Espírita Brasil, atua na divulgação da Doutrina Espírita escrevendo textos e realizando palestras.

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