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Serafim e a preguiça do Zé

maio 14, 2015

abel-sidneyEsta é história de dois companheiros nossos lá de Minas Gerais. João e José. Vizinhos em suas terras, os dois levavam suas vidinhas conforme corriam os dias e permitia Deus… Pelo menos era isso que dizia sempre o João:

– É, vamos indo, conforme Deus quer!

E o mesmo dizia o José. E os dois, quando se encontravam na divisa de suas terras, trocavam suas prosas por muitas horas. Eram os bons tempos da fartura, aqueles tempos antigos que não voltam mais. Amarrava-se cachorro com lingüiça, tudo que se plantava, dava, eta saudade!

Anos mais tarde, vamos encontrar o José novamente conversando com o João. Lembrando das coisas boas do passado… E o José a suspirar, dizia ao vizinho e amigo:

– Ó que tempos bons eram aqueles, João! Parecia que tudo caia do céu…

E completava o João, concordando com o velho companheiro:

– É verdade, Zé! Bons tempos aqueles, que tudo caia do céu, direto para nossas bocas, nossas roças, nossos pastos… Eram tantas bênçãos!!! Mas, cá pra nós, Zé, eu sinceramente não acho que as coisas pioraram não, sô!

– Mas como não, João? Você parece que vive fora do ar, homem de Deus! Você não vê que as coisas desandaram de vez?! Onde você andou estes anos todos, compadre?

– Ara, Zé?! E eu fui para algum lugar? Deixe de bestar, homem! E eu não estive aqui na lida? Devagar, mas sempre labutando um pouquinho?

– É, João, mas você, ao contrário de mim, teve muita sorte! Veja aí tua fazendona! E olha aqui o meu sitiozinho!

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É gente, chegou a hora de me apresentar. Eu sou um desses anjos da guarda, em quem algumas pessoas de fé e as crianças ainda acreditam!

O caso que estou narrando acima é a pura expressão da verdade e eu aqui relato tudo tal como aconteceu, omitindo apenas alguns detalhes desnecessários. Até mesmo o modo de prosear dos dois amigos eu tentei reproduzir.

Bem, mas para não perdemos tempo com conversa fiada, vamos às lições do caso. E para saber do ocorrido antes e depois do que já narramos, vejamos como tudo sucedeu.

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Antes, nos tempos antigos, no interior de Minas, pertinho de Belo Horizonte, viviam lá os dois vizinhos e amigos. Eu guiava o João. Um outro amigo meu, o Bartolomeu, o José. Eu até que o convidei para narrar o caso, mas ele se recusou, dizendo tratar-se de uma história muito dolorosa a do José e que eu faria melhor. Será? Bem, pelo menos vamos tentar…

Os planos de Deus para dois eram muito parecidos – uma vida que todos hoje gostariam de levar: muita ocupação para os braços, pouca preocupação para a cabeça, esposas dedicadas, filhos obedientes, vizinhos de bom coração, parentela situada a uma boa distância. Além disso: terra que produzia bem, venda dos produtos direto na feira, bons fregueses e o presidente do Brasil com o país devidamente nos trilhos. Como diria o Zé, saudoso e com justa razão:

– Eta tempos bons, que não voltam mais!!

Pois bem, conforme vimos a vida dos dois seguiu a mesma trilha por muitos anos, até que…

Até que o Zé se pôs a descansar, amoleceu, adormeceu na rede do que ele chamava de boa preguiça. O espírito do comodismo grudou no Zé. Vida farta e este homem de Deus se acomodando, procurando barranco para se encostar. E o Bartolomeu lutando dia e noite para despertar o pobre do Zé. Mas que nada! Ele não dava ouvidos para as advertências do seu anjo guardião!

Enquanto isso, do outro lado da cerca, o João, muito previdente, cuidava de trabalhar. E trabalhar sempre. E dizia aos filhos, em tom de alerta:

– Ó, meninos, nós temos que fazer a nossa parte, pois Deus tem feito a dele!

Mas um dos meninos, que vivia lá pela casa do Zé, brincando com os filhos deste, um dia retrucou:

– Ara pai, nós levamos uma vida muito dura! Olha só os filhos do seu Zé, aquilo é que é vida! Pra quê a gente ficar aqui se matando de trabalhar? Da vida nada se leva…

Ah, eu mesmo que conhecia o João de muitos anos, nunca tinha visto ele tão transtornado. O homem babava de tão bravo! Perdeu as estribeiras. Juntou um chicote de couro trançado, zuniu e estalou no ar, chamou para junto dele o filho, olhou-o bem no fundo dos olhos e arrematou:

– Olha aqui, meu filho, eu te corto no chicote, mas você não vira vagabundo não, sô! E ai de você se não seguir os meus conselhos!

Eta trabalheira que deu para segurar as mãos do João. Veio até o Bartolomeu, voando, para me ajudar a inspirar o homem, para que ele não cortasse o filho todo com aquele belo chicote…

O que mais o irritou, na verdade, foi ouvir o “da vida nada se leva”…

Ele por muitos anos relembraria o caso, afirmando que “do trabalho honesto tudo se leva vida afora e até além da vida. E quem disser o contrário é preguiçoso e vagabundo…” Verdade doida a do João. Mas não é que ele tinha lá as suas razões!?

Resumindo, bastou o estalo do chicote, as palavras duras e, é claro, o exemplo de todos os dias, para fazer aprumar todos os sete filhos do João.

Já o Bartolomeu, Deus meu, que provação! Ele se movimentava do outro lado da cerca, sem folgar, tentando consertar a preguiça do Zé.

Preguiça crônica, dessas que consome o sujeito aos pouquinhos, tão sem pressa quanto o próprio.

E o Zé teve um dia, o despropósito de afirmar o que vai nestas palavras, tal como o meu amigo ouviu de seus lábios, num leito de hospital:

– Tenho pressa não, sô! Vou por aqui morrendo devagarinho, conforme a vontade de Deus.

Bartolomeu, com toda a sua paciência angelical, desejou nesta hora aplicar-lhe um justo corretivo por tomar o santo nome de Deus em vão!

 Narrando o fato, ele comentou:

– Imagine alguém cozido de preguiça, morrendo por conta da própria preguiça e ainda acusando a vontade divina de matá-lo aos pouquinhos… Haja paciência!!

A única coisa que consolou o amigo foi ele ter conseguido, por meio de umas tantas artimanhas, mudar o rumo da vida do Zé já nos seus dois últimos anos de existência.

Alguns anos antes nascera o último neto do Zé. O menino tornou-se o instrumento de que Bartolomeu se utilizaria para ajudar a salvar parte da lavoura, junto ao seu pupilo. O menino, tanto na aparência, quanto nas virtudes, parecia um anjo enviado a Terra. Miguel aparentava ser uma criança normal, quase igual aos seus irmãos e primos. Era levado, inquieto e curioso. Mas algo passou a chamar a atenção de todos: a sua inteligência, embora discreta pela natural modéstia, saltava aos olhos de quantos podiam percebê-la. Pois foi o Miguel quem, sob inspiração, começou a tirar o avô da pasmaceira em que ele costumava permanecer, durante dias a fio.

Tomado de amores pelo neto inteligente que desconcertava qualquer um com o seu raciocínio claro, lá ia ele atrás do menino, que lhe ia propondo desafios, tal como fazer o maior campo de futebol das redondezas; produzir a maior abóbora da região; fazer as vacas darem mais leite que o normal…

Os tios e primos de Miguel, lamentavelmente, movidos pelo ciúme, passaram a hostilizá-lo e deixaram de aproveitar muitas lições. Persistiram no comodismo que amolentava a todos e permaneceram cozidos no fogo brando da preguiça, assistindo e classificando tudo como “esquisitices de um avô caduco e de um neto mimado”.

O avô, pelo menos, pôde morrer mais em paz, reconhecido ao neto, que o fizera redescobrir que no trabalho de cada dia pode-se sentir prazer e alegria e até encontrar sentido para a vida…

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Convoquei o próprio Bartolomeu para deixar o seu depoimento e, assim, encerrarmos esta nossa conversa, que já vai longe.

De minha parte, posso dizer que meus pupilos se encaminharam todos na vida, com pequenos tropeços de alguns pelo caminho…

Quanto ao amigo, descobri algo mais tarde, ao examinar a trajetória de suas tantas vidas, nos arquivos celestiais: ele próprio fora também um desses preguiçosos teimosos, em algumas das suas passagens pelo planeta. Ele deveria, pois, viver experiência semelhante junto do Zé e sua família.

Deixemos, no entanto, que ele mesmo se pronuncie:

– Bem, não tenho muito mais a dizer, porém devo ressaltar um ponto, que pode servir de lição para todos. Trata-se de algo simples de se conceber, mas tão difícil de se colocar em prática nos dias que correm: a necessidade de fazermos a nossa parte, diante dos tantos deveres e dos muitos desafios com os quais nos defrontamos…

O Zé, infelizmente, não se preparou devidamente para os momentos das grandes mudanças. Não fez os deveres de casa e quando chegou o tempo das reviravoltas que ocorrem em nossas vidas, eis que o encontramos descansando, às voltas com o menor esforço, despreocupado de tudo quanto ele deveria estar realizando…

Enquanto que na mente do João nós víamos um imenso mapa com muitos roteiros possíveis, na da Zé somente uma imagem era visível – a varanda de sua casa e em destaque a rede com ele próprio a balançar tranquilo, com o cigarro de palha no canto da boca e o velho cachorro vira-lata a um canto, a se coçar…

O meu amigo Serafim não teve nenhuma dificuldade em ajudar o João a tomar as decisões na hora certa. Ele estava de prontidão, sempre preparado para todas as eventualidades. O mapa imenso lá estava, com todas as possibilidades e rumos a seguir. O João, assim, formou os filhos; ajudou a esposa a ter autonomia diante das possíveis ocorrências futuras, dando-lhe ocupação: os seus doces já famosos passaram a ser fabricados e enviados para bem longe; e mais – quando alguns laticínios pensaram em se instalar na região, o plantel das vacas leiteiras do pupilo do meu amigo já estavam a produzir o seu bom leite, substituindo o gado de corte, menos rentável naquela circunstância…

Ah, e o Zé, Deus meu! Sabe qual era a preocupação dele? Criar umas traíras e uns lambaris na lagoa próxima de sua casa, para as pescarias com os outros amigos inimigos da enxada. Nem mais viajar para pescar longe, nos rios grandes do norte de Minas, ele queria mais… Pois, dava muito trabalho, sô! Era o que ele dizia, com estas palavrinhas mesmo!!

A gente sabe que Deus é pai e não castiga seus filhos, como a gente entende os castigos dos homens da terra – a crueldade a serviço da justiça… Mas que nós temos que acertar nossas pendências, todo o nosso mal-feito, disso não duvidem, pois que é assim mesmo!

E por conta disso, eu e o Zé, agora estamos a nos preparar para mergulhar juntos, de novo na carne, para mais uma experiência. Eu irei antes, pois serei o seu pai; desta vez eu garanto para vocês que ele não escapará do trabalho… Ah, mas não mesmo!!

Abel Sidney

Nota do editor:
Imagem em destaque disponível em <http://www.sofaloaverdade.com.br/2014/08/secretario-compra-fazenda-de-porteira.html>. Acesso em: 14MAI2015.

Abel Sidney
Abel Sidney

Formado em Ciências Sociais e Administração de Empresas, por longos anos trabalhou como professor. Desenvolveu, em paralelo, um programa de incentivo à leitura e escrita e, em razão disso, tornou-se também editor. Participa do movimento espírita em Porto Velho - RO.

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