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Um conto Natalino

dezembro 24, 2014

sylvinha-gonçalvesO Natal se aproxima. As decorações já ganham destaque em todos os cantos. Presentes são antecipadamente comprados e depostos no pé de árvores de todos os tipos e tamanhos, bem como os comes e bebes, cuidadosamente guardados. Luzinhas multicolores reluzem nas casas, ruas e vitrines; Papai Noel, bonecos de neve, guirlandas e outros enfeites saúdam a todos. O clima mágico e festivo está no ar.

Eu apenas observo, recordando de meu último Natal em família, quando era criança. Meus olhos brilham e se entristecem. Lembro de mamãe, ao pé do fogão, que sempre me deixava provar, antes, o que seria servido em nossa ceia. Também me lembro de papai, que chegava sempre contente do trabalho, trazendo presentes para nós: mamãe, eu e Joana, minha irmã caçula. Não podíamos abri-los antes da hora. Então, nossa curiosidade de criança se aguçava e ficávamos sentadinhos e arrumados, esperando o grande momento. Joaninha estava tão bonita! Usava um vestidinho alvo, todo rendado e o cabelo preso ao alto da cabeça, com um grande e branco laço de cetim. Eu também estava com vestes novas.

Bem, mas o Natal passou e um mês depois, meus pais e Joana desencarnaram num acidente de automóvel. Passei a morar com titia, irmã de minha mãe, que nunca se casara e não tinha filhos. O choque lhe pesou o Espírito e então, numa noite, titia cometeu o suicídio. Não tendo para onde ir e mais ninguém para me acolher, fui para as ruas, me tornando um menino de rua. Tive muitas oportunidades para roubar e praticar o mal, mas mamãe sempre me ensinou a ser bom e falava sempre, para mim e Joaninha, sobre Jesus.

Nas ruas, fiz amizade com um senhor, já muito calejado pela vida. Ele saiu de casa, para nunca mais voltar. Eu sempre tive o amor dos meus pais e da minha irmãzinha, mas este senhor, assim que a idade veio, foi deixado de lado pelos familiares, que diziam que ele lhes dava muito trabalho. Este senhor me ensinou muitas coisas, nos tornamos amigos e como eu era quase um jovenzinho, passei a trabalhar por nós dois, reciclando o lixo. Eu o chamada de tio, tio Gené, pois Genésio era o seu nome.

Hoje, tenho a idade que tio Gené tinha, antes de também ir para o céu, pois certamente foi para o céu. Ele apanhou uma forte gripe, numa destas noites frias, e não resistiu. Estou aqui, contando essa história para vocês. No mesmo ano que tio Gené partiu, eu consegui, por misericórdia do filho de uma senhora, que sempre passava por mim e para mim sorria, me dando uns trocados, um emprego em uma pequena fábrica de sapatos. Eu aprendia tudo rápido e procurava realizar o meu trabalho com esmero e seu Mário, o filho desta senhora, logo me promoveu e com o passar dos anos, estava eu, trabalhando em uma grande loja, onde conheci Ana, minha atual esposa, que me presenteou com uma linda menina, parecida com Joana.

Eis que encontramos com um senhor, morador de rua, usando um gorro de Papai Noel e impossível não me recordar do meu último Natal em família e de tio Gené. Ele se vestia de Papai Noel e ganhava alguns trocados. Então, conversei com Ana e Alice, minha filha e sentimos, em nosso coração, o desejo de fazermos a diferença na vida daquele senhor… Antônio é o seu nome. Ele seria o nosso convidado de honra em nossa ceia de Natal. Já estava tudo pronto, esperando por ele, que sentindo o nosso amor, concordou, de bom grado, jantar conosco, porém, nos fazendo uma proposta: passarmos a noite de Natal, na rua, com ele e com os seus companheiros. Ficamos um pouco pensativos, pesarosos, mas, por fim, aceitamos. Apenas mudamos de cenário, digamos assim, levando os comes e bebes e os presentes, da nossa casa até a rua. Foi o melhor Natal da nossa vida! E ainda, o senhor Antônio concordou em ir morar numa casa de repouso, bem perto de nós – seríamos os seus padrinhos e assim, ele não estaria mais só e seria cuidado por todos.

Eu, Ana, Alice e senhor Antônio louvamos a Deus. Lembrei-me, emocionado, de uma das passagens do Mestre Jesus, de que se fizéssemos qualquer coisa a um dos pequeninos da Terra, que estaríamos fazendo diretamente a Ele, e de outra: “daí de graça o que de graça recebeste”. Lembrei-me do amor, do amor que me acolheu, que me tirou das ruas e deste mesmo amor que trouxe o senhor Antônio para perto de nós. E já estamos aguardando, felizes, por outro Natal, mas até lá, temos muito que fazer… Há uma multidão faminta e com sede deste amor de Deus, que envolve a todos… Não queremos ficar de braços cruzados e vocês?

Sylvinha Gonçalves

Imagens:

Presépio de Natal na Praça Dr. Gama, em Birigui, SP.  Foto Ismael Gobbo. Imagem disponível em <http://www.noticiasespiritas.com.br/2014/DEZEMBRO/23-12-2014.htm>

Sylvinha Gonçalves
Sylvinha Gonçalves

Bacharel em Antropologia pela PUC-Goiás, Professora de Educação Especial e Inclusiva e Psicopedagoga pelo Centro Universitário de Rio Preto (UNIRP). Escritora, estudiosa e pesquisadora Espírita. Trabalhadora do GEAL - Grupo Espírita André Luiz de São José do Rio Preto - SP.

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